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O sal da terra

Dunas alvas, falésias coloridas, vento forte e enormes montanhas de um branco reluzente. Assim é o exuberante cenário da região salineira do Rio Grande do Norte.

Por Eugênio Bezerra

Canindé Soares

Pirâmides de sal no município de Macau

“Esta é a terra que amo.
De rio em preamar sereno,
onde, entre ferrugens e sombras,
descansam âncoras, e navegam
fantasmas de barcos cinzentos.”

“De moinhos, que eram girassóis aos ventos,
girando, rangendo,
as águas levando para o amanho do sal.
Hoje, imóveis moinhos
sob estáticos azuis,
ausentes de lestes.
Adeus. Não haveis de girar mais,
ó solitários vigias das águas.”

“Esta é a terra que amo.
De miragens, peixes e búzios,
de cheiro intenso de maresia,
de fosforescentes ostras, de corte de navalha,
enlaçadas no caules dos mangues escuros.
De aves em brancos vôos,
eternizando os gestos
e os passos da infância.(...)”

Quiséramos nós que todos os convites fossem de poesia sem gavetas, como o que assumo hoje com um prazer derramado em linhas. Meus sentimentos são pendulares, nada constantes. Ora amargo o mar, ora amar o mar. Tudo isso faz sentido quando lembro de Macau, a terra de onde venho, a terra de onde brota o mineral salobro, onde a rima faz causa pra poesia. É por isso mesmo que falar sobre a região salineira já me aflora lágrimas que ardem os olhos de sódio, embora essa não deixe de ser uma doce missão. Uma terra que produz tantas riquezas naturais e humanas é, sem dúvida, uma terra de excessos e opostos. Portanto, perdoem-me, desde já, qualquer pitada desmedida. Sou apenas um dos loucos de lá..

Macau é intensa e me ensinou a reconhecer e gostar de outros loucos. Eles são inspiradores, desbravadores e sobram naquela região. Por fazer parte da minha memória, é impossível a cidade não ser privilegiada nesse texto, embora eu já ouça o desdém dos mossoroenses: bairristas tanto quanto nós. Mas, enfim, não fugirei. Impossível seria negar minha origem e meu destempero ao falar daquela região. É certo que saí de lá pra me tornar cidadão do mundo já faz tempo, embora a energia do sal tenha me impregnado o caráter, dilatado as artérias e ainda me consuma em dias de brisa suave ou ventania.

Ser macauense é aceitar que atitudes sejam moldadas pelo vento forte. A energia que me fez é abundante em toda a extensão salineira. Basta um banho de mar para sentir o poder dessa terra de sal e sol: elementos que sobram nessa região do nosso Rio Grande do Norte — o povo, sua cultura, culinária e, claro, economia — embora essa tenha mudado tanto, tão rapidamente nos últimos anos, desde que eu me entendo por gente.

Não é só a quentura. Depois de um mergulho na praia de Camapum, a pele seca pelo sol e nela se destacam os cristais de prosperidade milenar. O sal é dessas riquezas que remontam ao período da pedra lascada e das habitações lacustres, mas é da observação de um processo de evaporação que se consegue perceber o quão natural é nossa produção salineira. Aliás, as mais belas imagens da minha infância e de todas as vezes que voltei a minha cidade e municípios vizinhos se formaram ao olhar para aquela paisagem e suspirar. Tenho a impressão de que todo gigante existe para nos arrancar suspiros.

As montanhas de sal são de uma brancura sem fim. É um branco reluzente que desafia nossas pupilas. Eu me sentia minúsculo diante daquela paisagem e agora, lembrando, tenho a impressão de que nunca cresci. Por falar em poesia, tenho um pouco de Zila Mamede em mim. Do mesmo jeito que ela confundiu um canavial com o mar, quando pequeno, eu achava que aquela paisagem era glacial. Num belo dia, correndo só de cueca, perguntei a minha mãe: “É neve? Por que não derrete nesse sol forte, mainha?” Claro que a resposta foi cheia de obviedades. “É sal, menino”, ela retrucou sem muita paciência. Meu pai conhecia aquilo melhor do que ninguém. Ele trabalhava como motorista na maior empresa produtora de sal. Assim como papai, muitos estavam empregados na atividade em toda região. Mas aí chegou a evolução tecnológica — ela pode tardar, mas não falha, não se engane — e a mudança começou. O processo então artesanal, que envolvia desde o trabalho braçal de carregar o sal em carrinhos de mão, foi substituído. Para facilitar esse processo, chegaram as esteiras. Tudo foi ficando mecanizado, industrial, justiçando as teses marxistas que sustentam o capitalismo até hoje. As máquinas mudam o mercado de trabalho e as relações de consumo. Só entendi aquele movimento anos mais tarde, na escola. Mas aquilo me mudou também.

Viver em Macau sem o trabalho que colocava o pão na mesa era muito salgado. Meu pai teve de procurar emprego na capital. O êxodo nos fez ter outro tipo de relacionamento com minha terra natal. Passei a voltar apenas nas festas. Quase todos os anos estávamos lá para a folia de carnaval. Aquele frevo aproximava as pessoas. Os blocos tradicionais e as marchinhas faziam a alegria do povo que tomava banho de mel e se grudava com farinha e lama do mangue. Depois, tudo era lavado nas águas térmicas que jorravam dos poços. Pense num banho bom! Fico saudoso de lembrar.

O processo provocou mudanças, mas o sal continua sendo símbolo do progresso. É um produto de grande importância para os onze municípios da região: Areia Branca, Alto do Rodrigues, Carnaubais, Grossos, Guamaré, Macau, Mossoró, Pendências, Porto do Mangue, Serra do Mel e Tibau.

Tudo a ver com o mar a amar
Somos pequenos diante da imensidão da costa brasileira, uma faixa que tem mais de nove mil quilômetros de extensão. Mas é na nossa parte que estão situadas as maiores empresas salineiras do país. Nas nossas salinas se produz 97% do sal marinho consumido internamente e que também vai para além da fronteira. Exportamos e influenciamos a economia regional, sobretudo através da geração de emprego e do pagamento de impostos.

O clima é favorável. Nessa curva do continente a temperatura é elevada, chove pouco, o vento é seco e a umidade do ar fica quase sempre entre 65% e 75%. É essa combinação que favorece a existência de salinas, predominantemente em Macau e Areia Branca. Mas o sal e a pesca unem todas essas cidades que também fazem parte do conhecido Polo Costa Branca.

Pescadores colonos se instalaram ali. Meu avô, Seu Agostinho, colocava a batera no mar para trazer os peixes que eram consumidos pela família e vendidos. Vovô era pra mim um Posseidon — achava o máximo ter um avô capaz de trazer peixes daqueles mares profundos do litoral entre Macau e Guamaré, cidade que surgiu desmembrada da minha, apesar de ter características semelhantes. Os nomes dos peixes que vinham na rede também me chamavam a atenção: xaréu, cioba, robalo e ubarana.

A produção de petróleo, em terra e no mar, é outra característica da riqueza. Algumas precisam ser melhor exploradas. E aí vem Mossoró pra fazer escola. Uma cidade que se destaca pela capacidade de contar a própria história ao ar livre em espetáculos como “Chuva de Bala no País de Mossoró”. Se o Rio Grande do Norte tem um centro cultural, ele está lá na terra pioneira, abolicionista de Santa Luzia. De tão repetida e de tanto sucesso essa repetição, todos já conhecem. Não preciso me alongar. Quero mesmo é enxergar a região salineira através das letras entrelaçadas e pontiagudas de Vicente Serejo, do frevo rasgado e contagiante de Leão Neto, da fé em Nossa Senhora da Conceição, Santa Luzia e Nossa Senhora dos Navegantes, da luz vibrante de Castelo Casado, da bossa nova precursora de Hianto de Almeida, que foi parceiro de Chico Anysio; do petróleo, da culinária, da cultura forte e resistente, da luta pelos mais carentes do sociólogo Benito Barros, da poesia sofisticada e sempre tão bem declamada pelo saudoso Gilberto Avelino, autor do poema do início da página.

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