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Nos corredores do Salesiano

Foi lá que fiz os melhores amigos, aprendi as maiores lições e vivi as histórias mais incríveis que carrego até hoje

Por Juliana Manzano

Manhã Salesiana, estudo em tinta a óleo, 1964. Eduardo Pinto

Em novembro próximo completará exatos 20 anos da primeira vez que entrei no Colégio Salesiano São José. Eu tinha sete anos e ia fazer um exame de seleção acompanhada da minha avó e da minha irmã mais velha. Até hoje não sei explicar o porquê, mas mesmo antes de adentrar por aquele grande portão de ferro eu já nutria uma enorme simpatia por aquele tradicional colégio edificado no terreno doado pela viúva do industrial Juvino Barreto. Quando entrei, tive certeza que era ali o lugar que eu queria para passar os melhores momentos da minha infância e adolescência.

Era fevereiro de 1996 quando vesti, pela primeira vez, a calça cinza e a blusa branca com o símbolo do colégio no peito esquerdo e listras vermelhas e brancas nos ombros. Estava matriculada na 3ª série e era, enfim, uma aluna Salesiana. Naquele ‘universo’, os desafios seriam vários: novos amigos, professores diferentes, um ensino rígido, uma disciplina religiosa, uma rica histórica e até um bairro ‘desconhecido’ para desvendar. Sim, desconhecido entre aspas porque eu não tinha a menor intimidade com a Ribeira à época, mas ouvia centenas de histórias contadas pelo meu pai e pela minha avó sobre o charmoso bairro da capital potiguar.

Educadores
É impossível falar sobre o Colégio Salesiano sem citar as duas maiores ‘lendas’ que já tivemos ali: o saudoso Padre Prata e o famoso coordenador Mário Sérgio, isso sem falar nos tantos professores e funcionários queridos, como Dona Nevinha, a nossa Xuxinha, como representante daqueles que já acompanharam tantas gerações.

Apesar de alguns ex-alunos mais antigos lembrarem de Padre Prata como uma figura ranzinza, eu lembro dele como um senhor de cabelinhos brancos que, pela idade já avançada, participava das missas com poucas palavras e brigava com nós, alunos (as), quando estávamos abraçadas com algum colega ou namorado (a) dentro do colégio. Ah, quantos beliscões e ‘chavadas’ levamos... E quantas lágrimas ele nos fez chorar quando foi para a Morada do Pai.

Já Mário Sérgio é a figura que mais desperta distintos sentimentos nos milhares de ex-alunos que já passaram por ali. Para alguns, um ditador. Para outros tantos, um educador. Para mim, um pai. Um homem com fama de durão, mas com o coração enorme. Que sofre todo ano ao ver sair das suas ‘asas’ seus mais de 300 ‘filhos’ concluintes do Pré, mas fica muito mais feliz por ver o sucesso deles lá na frente e saber que ali tem um dedinho seu. Se os valores de dignidade, respeito e disciplina, eu já tinha aprendido em casa, foi ele quem me fez aperfeiçoá-los. Até hoje escuto “essa menina aprendeu a disciplina de Exército com Mário Sérgio” e, coincidência ou não, ouvi recentemente de dois amigos e ex-alunos que eles – hoje professores – também levam o mesmo dessa ‘rigidez militar’ para seus alunos. Por tudo isso, ao meu ver, ele é o grande responsável por elevar o nome do Salesiano como uma das melhores instituições de ensino do Estado.

Amizade e fé
Mas, apesar da média 7.5, meus nove anos como aluna Salesiana foram muito mais do que só estudo. Foi lá que fiz os melhores amigos, aprendi as maiores lições e vivi as histórias mais incríveis que carrego até hoje. Na capela sempre tivemos muitos aprendizados para a vida cristã. Independente de religião, os momentos de acolhimento eram frequentes e não só nos livravam de uma aula cansativa no primeiro horário mas, principalmente, nos mostrava desde cedo a importância de ter em Deus o nosso maior refúgio. Nos dias de São José, Maria Auxiliadora, Dom Bosco e Domingos Sávio, todo mundo já sabia: era dia de missa no ginásio com todos os alunos presentes e a banda da escola, a qual fiz parte com muita honra durante dois anos, sob o comando do querido Ademacy Júnior.

Dizem que quando uma amizade passa dos dez anos podemos ter certeza que é para a vida inteira. E isso é mais uma coisa que tenho a agradecer àquele Colégio que tanto me orgulha. Aqueles corredores e aquelas salas de aula me trouxeram os melhores amigos que eu poderia ter, sendo alguns já há quase duas décadas. Amigos que compartilham momentos bons e ruins, daqueles que não importa a distância que esteja, nós sempre sabemos que o aperto do abraço carinhoso é o mesmo.

Fora dos muros
Se o colégio parecia enorme no início, aos poucos o espaço ia ficando insuficiente. Mas para resolver esse probleminha tínhamos a Praça Augusto Severo, localizada em frente e também conhecida como Largo Dom Bosco ou Largo do TAM, em referência ao Teatro Alberto Maranhão. Ela era o palco principal das conversas pós-aula, dos namoros proibidos e até das brigas entre os meninos que sempre chegavam ao fim por ordem de Mário Sérgio.

Já na pré-adolescência, os minutos na praça representavam um passo à liberdade. No entanto, foram os passeios pelo bairro da Ribeira que me motivaram dar o grito da independência. Sair mais cedo da aula para ir com as amigas comprar vale-transporte no antigo Setrans era um programa sempre divertidíssimo, não importava se era à pé ou no ônibus Circular que fazia a linha Ribeira/Rocas. O que a gente queria mesmo era voltar com histórias para contar e alguma descoberta no caminho. E, para mim, a maior delas foi aprender, aos 12, a pegar um ônibus sozinha para chegar em casa. Minha mãe quase enfarta.

Nos Jogos Escolares do RN, os JERNS, a Fúria Salesiana – nome dado à nossa torcida – comparecia em peso. Eu nunca fui muito fã de esporte e se participei de uns três como atleta foi muito. Mas não perdia uma cerimônia de abertura nem os jogos dos amigos. Era mais um momento de integração que nos deixava eufóricos e orgulhosos. As lembranças estão guardadas não só na memória, mas também nas tantas camisas da torcida que ainda tenho.

Terminei o Pré em 2004 e aquela semana de despedidas foi bastante sofrida. Não era apenas deixar de ter o convívio diário dos amigos para viver o mundo de uma universidade. Era muito mais do que isso. Era perder a minha segunda casa, era deixar de estar todo dia em um local onde sentia tanta segurança e onde passava a maior parte do meu dia. De certa forma, era perder parte do meu eu.

O ‘desmame’ foi complicado, lento. No ano seguinte, mesmo já cursando Jornalismo, ainda ia com freqüência na escola. O processo de avaliação dos alunos do Pré era semelhante ao de um vestibular e eu, como ex-aluna, aproveitava para ser fiscal de prova e ter mais uma desculpa para estar lá novamente. Aos poucos, a responsabilidade e a dedicação à profissão que eu tinha escolhido seguir foram aumentando e o afastamento foi inevitável.

Aluna e mãe
Desde a época em que era aluna sempre disse que faria questão de que meus filhos ali também estudassem, e meus planos continuam os mesmos. Em meados de julho do ano passado, decidi levar meu filho, que estava com dois anos e meio, para conhecer o colégio no qual eu havia estudado a vida inteira e a visita não podia ter sido melhor.

Ainda não consigo descrever a alegria que eu senti ao entrar novamente no meu querido Salesiano e passar um bom pedaço de uma tarde. Voltei no tempo. Reencontrei tantas pessoas queridas que ali ainda estão e lembrei de tantos momentos. Entretanto, a maior surpresa foi ver a felicidade do meu pequeno em estar ali. Parecia, nitidamente, que ele sentia o mesmo sentimento que eu quando pisei lá a primeira vez. A sensação de estar em casa. De estar seguro.

Naquela tarde diferente, ele brincou no parquinho, correu na quadra, ficou impressionado com a piscina enorme que a mãe nadava, bagunçou as gavetas do tio Mário Sérgio, comprou lanche na cantina, ‘adotou’ um peixinho do aquário da recepção, conheceu a capela e, claro, foi apresentado à Maria Auxiliadora, São José, Dom Bosco e Domingos Sávio. Daqui a alguns anos será a vez dele vestir a farda cinza, vermelha e branca que tanto tenho saudade. E depois do brilho que vi nos olhos dele, tenho certeza que o amor que eu sinto já foi passado.

Aprendizado
Dos quase dez anos que fui aluna daquela instituição, eu posso dizer que vivi o Salesiano da forma mais intensa que podia. Participei de tudo que tive oportunidade e todos os meus segundos dentre daqueles muros – e fora deles – foram bem gastos. Fiz amigos, aprendi com grandes mestres, escrevi para o jornalzinho da escola, participei da criação da rádio, fui líder cultural, cantei em missa, em Romaria Jovem, viajei com a banda do colégio, fiz Primeira Eucaristia, fiz Crisma, saí de sala, dei trabalho, tirei nota máxima e mínima em provas, recebi elogios e críticas, fui dura, dei carinho, aprendi a nadar, a jogar vôlei, xadrez, chorei, sorri, vivi e fui muito feliz. A saudade é um sentimento muitas vezes difícil de lidar, mas quando temos a certeza de que os momentos foram bem aproveitados, a dor se transforma em um saudosismo gostoso e uma eterna gratidão. Uma vez Salesiano, para sempre Salesiano!

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