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Régua e compasso

De alagadiço aterrado a palco mais importante da sociedade, as soluções de engenharia e os projetos arquitetônicos que marcaram a Ribeira

Por George Dantas e Yuri Simonini

Canindé Soares

Panorâmica do do bairro da Ribeira. Nos extremos, Av. Deodoro (esq.) e o bairro das Rocas

Parte fundamental da história de Natal, o bairro da Ribeira ainda inscreve em sua paisagem e em sua estrutura urbanas atuais as marcas de tantos processos de modernização e as consequentes alterações de suas feições. Ainda assim, é possível descer a Junqueira Ayres (atual Câmara Cascudo), a antiga ladeira da Cruz, numa tarde quente e úmida, e imaginar o caminho que muitos fizeram, enterrando os sapatos e alpercatas na areia, na azáfama do cotidiano para resolver os negócios na Ribeira. Da antiga ladeira areenta, via-se o grande alagadiço – a “Campina da Ribeira”, registro marcante na iconografia desde o século XVI – que separava o bairro baixo, a Ribeira, da Cidade Alta.

Porta de entrada da cidade, a Ribeira abrigaria, sobremodo a partir do século XVIII, principalmente as atividades portuárias e de comércio. Com a abertura dos portos brasileiros, em 1808, o bairro ganharia pouco a pouco maior dinâmica e importância. Não à toa, a sede do Governo Provincial seria erguido na antiga Rua do Commercio (atual Chile), em um belo prédio neoclássico, com três pavimentos, cuja imponência ainda se percebe, a despeito da pátina do tempo e dos escombros de edifícios vizinhos, muitos descaracterizados.

A Ribeira do séc. XIX floresceu com o desenvolvimento do Porto e da navegação a vapor de maior porte, principalmente a partir de 1860. O registro um tanto impreciso do Atlas do Império do Brasil, de Candido Mendes, publicado em 1868, revela uma Ribeira contida entre a Campina, ao Sul, e o imenso areal, que se estendia a Norte, a partir do que seria depois a Esplanada Silva Jardim. A Leste, a pequena Igreja do Bom Jesus das Dores, quase isolada, fechava o pequeno trecho urbanizado. O mapa que ilustra o Atlas revela, mais ainda, uma cidade de Natal um tanto acanhada, naquela aparência de “quase aldeia”, como escreveria Henrique Castriciano, tema fundamental nas discussões (e nas ações) técnicas e políticas para transformar Natal em capital, de fato, da província do Rio Grande do Norte.

A necessidade de estruturação e modernização do Porto, assim como a construção da primeira linha férrea, em fins do século XIX, atreladas ao rápido crescimento do bairro, enfrentaram dois grandes obstáculos. O primeiro era a Campina. Local considerado insalubre e foco de diversas doenças, como atestam várias mensagens dos governadores da província e relatórios das inspetorias de higiene, o alagadiço seria definitivamente aterrado em 1902.

O segundo problema era a inexistência de um cômodo acesso à Cidade Alta. O único caminho era uma íngreme ladeira de barro que separava a cidade em duas. Em dias de sol ou de chuva, era um tormento aos moradores que quisessem trafegar entre os bairros. O calçamento com a construção de um boulevard arborizado foi a solução, que ainda resiste em seu encanto despercebido na atual Av. Câmara Cascudo.

Operários
A mão-de-obra que “aformoseou” a Ribeira veio do interior. Eram as levas de retirantes das sucessivas estiagens prolongadas que buscavam na capital o alívio do flagelo das secas. Homens, mulheres e crianças trabalharam no calçamento, no teatro, no jardim e em diversas outras obras espalhadas na cidade. Parte do material destinado às obras contra as secas e recursos federais foram usados para construir o Teatro Carlos Gomes (atual Alberto Maranhão), fato criticado pela imprensa oposicionista, mas justificado pelo então governador Tavares de Lira como uma maneira de dar trabalho e ocupação aos sertanejos.

As fotos antigas, do álbum de Bruno Bougard (1904-05) e de revistas de época, permitem ver as multidões sofridas que se espalharam pelo espaço urbano de Natal e, principalmente, da Ribeira. Os abarracamentos, as redes sob as árvores próximas ao teatro e à estação ferroviária, as filas por trabalho e comida no aterramento da antiga Campina, ocupada quase inteiramente pelos retirantes, formaram a contraparte dos projetos de “melhoramentos” da capital.

O projeto do arquiteto Herculano Ramos levou à criação da Praça Augusto Severo, entre 1906 e 1907, espaço ajardinado, de arquitetura e passeios pitorescos, além de um eficiente sistema de drenagem. Era a antessala perfeita para o teatro, antes e depois das peças e exibições de cinematógrafo, para novos hábitos sociais, novas maneiras de ver e usar o espaço público. A beleza da praça ficou na memória dos antigos cronistas e nos postais que resistiram em baús e álbuns de família. As suas árvores, ponte e recantos foram destruídos em prol da construção da rodoviária da cidade, em 1963, e somente uma pequena parte restou do jardim.

Porto
O desenvolvimento da Ribeira permaneceu vinculado aos esforços de melhoramentos do Porto. De um simples trapiche de madeira, o Porto sofreu diversas intervenções com o intuito de permitir o acesso de navios de grande calado. As obras, de fato, se iniciaram em 1903, embora pequenos serviços fossem realizados desde 1860. O desafio principal se localizava em sua entrada. Abaixo da superfície, rochas e assoreamentos comprometiam a entrada de embarcações sob o perigo de encalhe ou de naufrágio, problema resistente às soluções de engenharia. De fato, somente a partir de 1908 os resultados começaram a se tornar visíveis. A pedra da Baixinha, localizada na embocadura do Rio Potengi foi dinamitada e seus entulhos dragados. As dunas localizadas nas margens do rio foram contidas pelo plantio de vegetação adaptada ao clima. Plantaram árvores de médio porte e até mesmo eucaliptos, mas a tentativa não deu certo. Por fim, a construção da guia-corrente de pedra em 1927, hoje usado pelos turistas e natalenses como passarela de acesso ao Forte dos Reis Magos. E, em 1932, com a organização dos portos brasileiros, a capital potiguar veria o antigo trapiche transformado no Porto de Natal, que conhecemos atualmente.

Crise
Ao longo da década de 1910, a euforia pelas transformações e embelezamento da capital dariam lugar ao ceticismo e receio devido à fragilidade dos serviços e equipamentos urbanos, configurando um quadro de crise que só seria (parcialmente) superado em meados dos anos 1920. A Ribeira, com o teatro, lojas de importação (e moda estrangeira), firmas comerciais, locais de lazer e prazeres recatados e mundanos, sofreria com os problemas que se avolumavam: a falta de energia constante (proveniente da Usina Elétrica do Oitizeiro, no Baldo), interrompendo até as atividades dos jornais, como A REPÚBLICA, a circulação intermitente dos bondes, o acúmulo de lixo, a falta de calçamento e o alagamento de várias vias.

A retomada dos investimentos pelo governo estadual, com José Augusto Bezerra de Medeiros e, depois, Juvenal Lamartine, e a reorganização da Intendência Municipal de Natal, com o engenheiro Omar O’Grady, a partir de 1924, ajudam a explicar a superação desse quadro de crise. Uma série de projetos, planos e obras seriam realizados, retomando a preocupação com a reestruturação do bairro da Ribeira, preparando-o como porta de entrada da cidade, que de fato era. Quer por trem, quer por navio (no Cais Tavares de Lira), os viajantes aportavam em Natal pela Ribeira. Estava-se em “plena city”, como registraria Mario de Andrade em seu diário de turista aprendiz, em dezembro de 1928. A citação nos traz um pouco do sabor dessa cidade – e do bairro da Ribeira, em especial – mais complexa no final da década de 1920: “mal a barca traz a gente de bordo pra escadinha do cais [...] o centro é ali mesmo, Hotel Internacional, restaurantes, barbearias, redações, bancos, casas de comércio, telégrafo. É tudo ali mesmo, na rua que a escadinha abriu no meio do arvoredo, com todos os bondes e ônibus da cidade passando”.

A tentativa de ordenamento e controle do crescimento da cidade foi retomado como pauta importante, inclusive porque os problemas sanitários (e as altas taxas de mortalidade infantil, por exemplo) persistiam, como registrara duramente o médico Januario Cicco em 1920, em seu “Como se higienizaria Natal”.

A planta cadastral coordenada pelo engenheiro Henrique de Novaes, publicada em 1924, permite ver o adensamento do bairro da Ribeira e maior ocupação a este; os pátios ferroviários da Esplanada Silva Jardim e da estação da Praça Augusto Severo; e a fixação do bairro vizinho das Rocas, que surgiu em decorrência da mão de obra operária que vivia das atividades portuárias e pequenas indústrias e comércio da Ribeira. Novaes organizaria também um plano de saneamento que abrangia toda a cidade então.

Hidroaviões
Parte das obras previstas para a Ribeira seria realizada nos anos seguintes e serviria de base para os planos do arquiteto Giacomo Palumbo (1929-30) e do Escritório Saturnino de Brito (1935-39). Junto com os planos, vieram também os hidroaviões. De cais do porto, a Ribeira assiste o pouso no rio Potengi dos aventureiros dos raids aéreos e dos voos regulares e comerciais da Latecoère, do Sindicato Condor e da Nyrba. A pequena filha de Palumbo, Yvette, lembraria ainda, décadas depois, da aventura do voo de Recife a Natal e da emoção que antecedia a aterissagem, quando seu pai vinha a Natal para estudar a cidade e elaborar seu plano. Tal projeto descortinava uma Ribeira aberta ao Rio, com uma série de retificações de ruas, abraçada por um boulevard de contorno, dentre outras propostas, algumas das quais seriam realizadas anos depois, como a nova ligação entre a Cidade Alta e a Ribeira com o prolongamento da Avenida Rio Branco.

O avião também seria utilizado como suporte para o estudo da cidade no Plano Geral elaborado pelo Escritório Saturnino de Brito, a partir de 1935. A fotografia aérea mostra a Ribeira densa junto ao Potengi, expandindo-se a leste e a norte.

Desenvolvimento
Menos visível, conquanto tão ou mais importantes, as obras de saneamento, inauguradas em 1939, dariam suporte para o crescimento da cidade nas décadas seguintes – processo que seria atropelado pelos desdobramentos da segunda grande guerra em Natal. Junto com as obras de saneamento, várias intervenções arquitetônicas consolidam o caráter cosmopolita – e boêmio – do bairro, como o Grande Hotel, de autoria do arquiteto Georges Munier, prédio com elementos art decò que ajudaria a articular a relação entre a descida da Rio Branco, a Tavares de Lira (em direção ao cais) e a Avenida Duque de Caxias (antiga Sachet), larga e com o início da densa arborização que se vê hoje.

Muito da vida pulsante da Ribeira foi se deslocando, junto com o crescimento da cidade na segunda metade do século XX em direção Sul e Oeste. Novas centralidades e serviços surgiram, reconfigurando a lógica urbana e a dinâmica econômica e social de Natal para longe do sítios originais de ocupação, cobrindo-lhes com certa imagem de “decadência”. O sentimento de nostalgia, a crônica e a memória se misturam na percepção da Ribeira como parte fundamental – e viva – da história de Natal. A noção de patrimônio foi se constituindo pouco a pouco e, de maneira mais institucional, desde os anos 1990, com os projetos “Fachadas da Rua Chile” e “Viva Ribeira”, culminando com a delimitação do perímetro do patrimônio histórico de Natal (que inclui partes significativas da Cidade Alta e da Ribeira) pelo IPHAN, em 2010.

Articular a necessidade de preservação às novas demandas urbanas e econômicas é o desafio que continua se impondo para pensar a Ribeira como parte da cidade no século XXI.

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