Elas nunca estiveram tão em foco no Poder Executivo Estadual e avisam: vieram para ficar
Por Rosilene Pereira e Flávia Freire
Rayane Maianara
Autenticidade, colaboração, otimismo, emoção, intuição, iniciativa, sensibilidade, flexibilidade e capacidade de persuasão. Na análise de especialistas em recursos humanos, essas são apenas algumas das capacidades que se destacam entre as mulheres que estão em ascensão e que apontam um emergente estilo feminino de liderança no mercado de trabalho. Sim, isso mesmo: elas nunca estiveram tão em evidência, nas ruas, nas universidades, nas repartições, e tão próximas de alcançar o mesmo patamar de protagonismo que há séculos já é comum a eles.
Diversos são os estudos de universidades Brasil afora que se debruçam sobre o tão propalado avanço dos genes XX em cargos de destaque, seja na área pública ou privada. E, de modo geral, a constatação é a de que não há uma preferência específica do mercado de trabalho por homem ou mulher. O que se considera são características com ênfase mais conciliadora e menos diretiva, indiferente do gênero, aqueles predicados que já citamos no início do texto. É aí onde as mulheres se destacam, já que, por natureza, encaixam-se no perfil desejado.
RN: artigo definido femininoNa população norte-rio-grandense há uma discreta maioria feminina: 51% dos 3,4 milhões de habitantes, segundo dados do IBGE reunidos em 2010. Essa superioridade também se confirma no número de mulheres no serviço público estadual, que vem crescendo nos últimos seis anos. Hoje, 59,48% desse quadro é do sexo feminino. Das 61.783 servidoras do poder estadual, mais da metade está profissionalmente ativa, têm idades entre 46 e 60 anos, estudou até o ensino médio e é casada.
Nesta gestão do Governo do Rio Grande do Norte, as teses de que elas têm conquistado espaços de destaque se confirmam. “Para que uma instituição se fortaleça, é indispensável promover a participação das mulheres. E felizmente vemos isso aqui”, conta Julianne Faria, titular da Secretaria de Trabalho, Habitação e Ação Social (Sethas) e primeira dama do Estado. Ela e outras 11 líderes estão à frente de secretarias e outros órgãos da administração direta e indireta. Nunca, no Poder Executivo, haviam sido tantas.
Certamente, esta reportagem foi uma das mais difíceis de finalizar nesta edição. Tivemos que ir atrás destas mulheres que têm agendas cheias. Quando não era um compromisso com uma ação social a ser implementada urgentemente ou uma viagem para divulgar o nosso turismo no exterior, era uma reunião na escolinha do filho que pedia a sua presença ou até mesmo uma necessária ida ao supermercado para manter a casa em ordem. É assim quando se administra duas, três jornadas diferentes. São mulheres que precisam de muito ‘jogo de cintura’ para conciliar demandas de ordens tão diversas, mas igualmente importantes, e que são capazes de ‘ir pelas beiradas’ para conquistar o que querem; seja um apoio estratégico ou a aprovação de um projeto, por exemplo. “É importante não permitir que demandas pessoais se transformem em barreiras para os objetivos profissionais. É possível, sim, ser mãe, cuidar da família e ainda ter uma carreira de destaque”, acredita a Defensora Pública-Geral do Estado, Renata Alves Maia, mãe do pequeno Davi, de 3 anos.
A SPM e a quebra de paradigmasBasta acompanhar algumas entrevistas do governador Robinson Faria para notar que ele é incansável em defender um governo disposto a quebrar paradigmas. Pois bem. Muitas das dificuldades enfrentadas pelas mulheres na esfera pública, como a manutenção no cargo e a imposição de suas lideranças, nossas 12 entrevistadas disseram não ter encontrado nesta gestão, talvez porque esta já tenha surgido alinhada às políticas públicas femininas, já fazendo a tal quebra de paradigmas sustentada pelo chefe do Estado. Desde o plano de governo, elaborado ainda no período de campanha, estava prevista a criação da Secretaria de Estado de Políticas Públicas para as Mulheres (SPM), algo inédito no Rio Grande do Norte. Para ele, a implantação da pasta foi uma das medidas mais importantes de seu mandato: “O Governo do Estado valoriza e está diariamente fortalecendo as ações voltadas para o público feminino. Com a criação desta secretaria foi possível dar a oportunidade de a mulher participar mais efetivamente da nossa gestão.”
Em parcerias com outras secretarias e órgãos, a SPM realiza ações como a Conferência Estadual de Políticas para as Mulheres do Rio Grande do Norte e o Prêmio Fapern Mulher Pesquisadora, um reconhecimento àquelas que se dedicam à produção científica. Mantido pela secretaria, o Comitê Estadual de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher se dedica a avaliar ações no âmbito estadual.“A criação da Secretaria demonstra por si o compromisso do Governo na construção de alicerces para uma política direcionada à autonomia das mulheres”, revela Flávia Lisboa, responsável pela SPM.
Ganhando espaçoOutra ação expressiva no fomento dessas políticas aconteceu em janeiro de 2016, quando o Governo do Estado cedeu o terreno que abrigará a Casa da Mulher Brasileira no Estado, na Avenida Mor Gouveia, em Natal. A casa faz parte de uma ação nacional da Secretaria de Política para as Mulheres, do Governo Federal, e concentrará serviços para aquelas que sofrem violência, como apoio psicossocial, defensoria pública, delegacia, promotoria e juizado.
Em 2013, uma pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revelou que o nosso estado tem uma média de 6,3 casos de homicídio feminino por 100 mil mulheres, acima do parâmetro nacionalde 5,8. Nesse âmbito, Fábio Dantas, em período como governador em exercício, sancionou o projeto de lei que institui agosto como “Mês de Proteção à Mulher”, com campanhas educativas e palestras. Para a secretária da Educação, Cláudia Santa Rosa, a iniciativa fortalece a discussão que já acontece na sala de aula. “Este tema é trabalhado nas escolas, mas um mês específico para isso tem efeito provocativo e evita que o tema seja esquecido diante de tantos conteúdos”, afirmou.
Tocando em frenteA violência contra a mulher, um entrave tão primário, ainda ocupa a maioria das políticas públicas pensadas para elas em todas as esferas de poder. Isso mostra que ainda há muito a avançar quando se fala em uma participação igualitária dos gêneros no mundo do trabalho. Se, numa ponta, há mulheres em posição de destaque discutindo a gestão de suas carreiras, noutra, há aquelas em situação de vulnerabilidade que ainda precisam lutar pela libertação de uma posição de subjugação e de negação de direitos básicos. “Acredito que a imagem de uma figura frágil e ingênua está cada vez mais sendo substituída pela de uma mulher capaz e com sensibilidade aguçada, principalmente quando se fala em gestão pública”, confia a presidente da Jucern, Sâmya Aby Faraj.
O que todas as nossas entrevistadas concordam é que, apesar dos avanços na busca pela igualdade de oportunidades para ambos os sexos, o caminho a ser percorrido ainda é longo. Passa pelo envolvimento de diversos setores do governo e da sociedade, engajamento fundamental para uma promoção da igualdade de gênero de fato.