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Onde o vento faz a curva

A região mais próxima dos continentes europeu e africano é famosa por suas belas praias e pela grande vocação para a produção de energia limpa e renovável, a energia eólica.

Por Emanuel Neri

Canindé Soares

Árvore do amor, na praia de Barra de Maxaranguape. Parada obrigatória dos casais apaixonados

Pelo nome, até parece que esta região potiguar é composta por uma densa mata cobrindo toda a sua extensa área geográfica. Puro engano. A região do Mato Grande, ao contrário do que parece dizer o nome, tem de tudo, menos a presença de uma vegetação exuberante.

O Mato Grande tem uma das maiores diversidades ambientais do Rio Grande do Norte. Ali podem ser encontradas vegetação típica da caatinga, tabuleiros, terrenos arenosos, áreas de restinga, dunas, vales e muitas praias, aliás, belíssimas praias. Mas longe de se caracterizar por uma região de vegetação exuberante.

Embora ainda seja uma região pobre, com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixo do Estado (0,599 contra 0,684 do RN e 0,744 do Brasil, numa escala que vai de zero a um), o Mato Grande é uma região rica, de muitas riquezas naturais.

Ocupando área de quase 5 mil km², com cerca de 250 mil habitantes, ali há uma das maiores fontes de energia renovável do Brasil, a energia eólica. E tudo isso devido à localização privilegiadíssima em que se encontra a região do Mato Grande. João Câmara, Parazinho, São Miguel do Gostoso, Jandaíra e Pedra Grande destacam-se na produção de energia eólica na região.

Se você olhar direitinho o mapa do Rio Grande do Norte, vai perceber que o Mato Grande está localizado bem na esquina do Rio Grande do Norte — ou, para se visualizar melhor, na esquina do continente sul-americano. Por isso é a região mais próxima dos continentes europeu e africano.

Pode-se dizer que o Mato Grande, principalmente sua região litorânea, está localizado onde o vento literalmente faz a curva. E até por esta localização estratégica o Mato Grande é privilegiado com ventos, fortes ventos durante grande parte do ano.

O resultado de tanto vento é que só o Mato Grande é responsável por 56% dos 2,59 gigawatts de capacidade instalada de energia eólica em todo o Rio Grande do Norte. Dos 94 parques eólicos instalados em todo o Estado, 56 deles estão no Mato Grande. Então, pense neste dado. Só o Mato Grande produz energia eólica mais que suficiente para abastecer todo o RN, cuja demanda está em torno de 800 megawatts.

Formada por 15 municípios, o Mato Grande também conta com grande quantidade de minérios, produtos agrícolas, pesca e cana de açúcar, produzida principalmente nos chamados verdes vales de Ceará Mirim.

Mas o que mais chama a atenção na região são as belíssimas praias e seus cenários naturais deslumbrantes. Isso faz com que o Mato Grande seja o terceiro polo turístico do Rio Grande do Norte — só atrás da região de Natal e de Tibau do Sul/Pipa. São sete municípios do Mato Grande localizados em praias. Maxaranguape, Rio do Fogo, Touros, São Miguel do Gostoso, Pedra Grande, Caiçara e São Bento do Norte. Mas tem também Ceará Mirim que, embora localizado na parte mais central da região, conta com belas praias em seu território, como Pitangui e Jacumã. Mas o carro-chefe ou, se preferirem, a joia da coroa do turismo do Mato Grande chama-se São Miguel do Gostoso.

E o turismo ali é impulsionado por praias paradisíacas e por um vento forte e constante, durante o dia, capaz de tornar a cidade um dos melhores pontos do país para a prática de kitsurf e windsurf. A temporada de vento, que começa em agosto e vai até março, é considerada uma das mais longas do mundo.

Durante o ano, velejadores do Brasil e do mundo inteiro procuram esta praia para a prática de kit e windsurf. Também são realizadas competições deste tipo de esporte, com forte participação de atletas de ponta, alguns deles campeões mundiais nesta prática esportiva.

São Miguel do Gostoso conta com cerca de 50 pousadas, muitas delas com um charme irresistível, e uma gastronomia de primeiríssima linha, capaz de deixar qualquer um com água na boca. E esta encantadora cidade de beira de praia fatura alto com o turismo. A atividade é hoje a maior fonte de renda do município e gera cerca de mil empregos diretos.

Costuma-se dizer que, em São Miguel do Gostoso, pelo menos na sede do município, não há uma única família que não tenha alguém empregado no turismo. Além dos empregos diretos, há grande número de pessoas que trabalham indiretamente na atividade turística. E todo o comércio da cidade vive, em grande parte, em função do turismo.

São Miguel do Gostoso concentra também as principais atividades culturais do Mato Grande. Ali é realizada, nos meses de novembro, a Mostra de Cinema de Gostoso, com a exibição, em plena beira da praia, do que há de melhor da produção cinematográfica brasileira. A partir deste ano, a Mostra de Gostoso vai exibir também filmes estrangeiros, principalmente africanos.

E no mês de setembro é a vez de São Miguel do Gostoso abraçar, junto com Natal e Pipa, o Fest Bossa & Jazz, o maior acontecimento musical do Rio Grande do Norte. Este ano a cidade promete também outros grandes eventos, como a apresentação da banda Paralamas do Sucesso. É que pelo menos dois membros desta banda têm casa nesta praia e querem presentear a cidade com um show deles.

O que promete também ferver este ano em São Miguel do Gostoso é o Festival de Gastronomia. E aí o Rio Grande do Norte inteiro, além de outros Estados da região, vão se deliciar com o nível de excelência da cozinha local. Diga-se, sem medo de errar, que ali se encontra uma das melhores gastronomias do Nordeste. Dúvidas? Vá lá, prove e comprove a delícia da gastronomia local.

Em São Miguel do Gostoso, além de pousadas, bares e cafés, todos charmosíssimos, há pelo menos dez restaurantes considerados excelentes. E sua culinária, variadíssima, viaja por especialidades de vários países, passa pela comida contemporânea e pela fusão de diferentes culturas culinárias, até chegar aos pratos regionais, igualmente deliciosos.

Na praia do Tourinhos, em São Miguel do Gostoso, considerada uma das praias mais belas do Brasil, você pode comer peixes e camarões grelhados — dependendo da época do ano pode sair também lagosta — nas barracas simples que ficam sobre a duna, próxima à beira da praia. Mas também pode sofisticar um pouco mais e comer risoto de caju desidratado acompanhado de camarão em um restaurante italiano local. Sobremesa diferente? Experimente o pudim de capim santo.

Mas, já que esta viagem vem falando de sabores, é difícil falar do Mato Grande sem tratar de outras maravilhas que existem na região.

Você já provou os sequilhos de Taipu? E os biscoitos “raivinhas” de São Miguel do Gostoso? Chama-se “raiva” ou “raivinha” porque você quase não se consegue parar de comer, de tão gostosos que eles são — e aí a balança, com certeza, vai aumentar sua raiva. E as cocadas, com açúcar e coco, obviamente, que são encontradas em todas as cidades e em toda a beira de praia desta região? Tem mais. Delicie-se com o peixe com tapioca de Carnaubinha e o pastel de lagosta de Perobas, praias no município de Touros.

Bem ali no limite com o Mato Grande, em Estivas, município de Extremoz, não dá para resistir aos grudes, feitos com coco e goma de mandioca, vendidos às margens da BR-101, uma das principais rodovias que cortam a região. E bem ao lado tem também um verdadeiro festival de cores e sabores tropicais. Assim é a feirinha de Estivas, com os mais variados tipos de frutas típicas do Nordeste.

Se não bastasse o cheiro e os sabores das frutas, aquilo é uma maravilha e vai, com certeza, fazer seus olhos brilharem muito mais. Pode explorar e fotografar à vontade. Você está em um dos lugares mais típicos e interessantes do Rio Grande do Norte.

E tem muito mais maravilhas a serem descobertas no Mato Grande. A viagem pela região tem duas grandes portas de entrada. Uma delas é a BR-101, a maior rodovia do país, com quase cinco mil quilômetros de extensão, entre Torres, no Rio Grande do Sul, e Touros, aqui no RN. No final desta estrada, tem o marco zero da rodovia, com pórtico feito pelo arquiteto Oscar Niemeyer, que anda um pouco descuidado.

Um pouco antes dali, você pega a RN-221, à esquerda, para São Miguel do Gostoso. E são só 18km até este badalado destino turístico. Mas, ainda no marco zero da BR-101, tem uma joia que precisa ser conhecida. É o farol do Calcanhar, o mais alto da América Latina, com mais de 100 anos, 62 metros de altura, o que correspondem à altura de um prédio de 20 andares, e 298 degraus para se chegar ao seu topo. Infelizmente o farol só é aberto para visitantes nas tardes de domingo.

A outra porta de entrada no Mato Grande é a BR-404, que sai de Natal e passa por Ceará Mirim, Taipu, João Câmara e muitos outros municípios da região. Mas se você quiser descobrir o lado mais interessante do Mato Grande a opção é entrar mesmo na região pela BR-101, na direção Norte do RN — em relação a Natal.

E você vai descobrir coisas incríveis por ali. Uma delas é o Cabo de São Roque, em Maxaranguape, o ponto considerado mais próximo do continente africano. Em Maracajaú, estão uma das cadeias de corais mais belas do Nordeste, conhecidas por Parrachos. Ande mais um pouco e aproveite para descer, de boia cross, pelo rio Punaú até Zumbi, onde este rio se encontra com o mar.

Pertinho dali, mas do outro lado da BR-101, tem outra maravilha de deixar qualquer um com o queixo caído. É o Tao Paradise, na nascente do rio Punaú, um verdadeiro paraíso, já no município de Pureza, em que se pode passar o dia em meio a sombras e águas frescas de piscinas naturais.

Dentro d’água, você pode se surpreender por mangas rosa, saborosas, que vem rolando rio abaixo. Quando a fome bate mais forte, um cheff italiano, debaixo de uma tenda tipo balinense, prepara um almoço delicioso. Você pode escolher dois tipos de cardápio — o do mar (frutos do mar, obviamente) ou o da terra (carnes e aves).

Volte para a BR-101 e passe por Touros, cidade antiga que tem uma igreja centenária. Dali é um pulinho até Carnaubinha e Perobas, praias muito bonitas. Em Perobas também tem corais.

Mas o destino mais indicado é mesmo chegar a São Miguel do Gostoso, depois da curva do continente. É por isso que uma das características desta praia é que ela se localiza a Oeste de Natal e não ao Norte — ali, o Norte fica de frente para a cidade, dentro do mar. Até por causa desta posição geográfica, entre maio e final de julho, o sol se põe ali dentro do mar — um espetáculo deslumbrante.

Se você quiser, pode esticar, de preferência de bugue, pela praia (onde é permitido, pois em alguns trechos é proibido devido à presença de banhistas e áreas de desova de tartarugas), até Galinhos, na sequência do limite do Mato Grande . No caminho você pode conhecer praias interessantes em Pedra Grande, São Bento do Norte e Caiçara.

Galinhos, então, já na região conhecia por Costa Branca, ou também região salineira, é uma península que avança no mar. Beleza espetacular. Assim é o Mato Grande. Praias lindas, mas também atrações as mais variadas possíveis. E sem contar com a vocação, privilegiada pelo vento, de ser uma das regiões do Brasil de maior concentração e produção de energia limpa e renovável, a energia eólica.

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