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O potiguar imortal

Em discurso durante a solenidade em homenagem ao Dia do Jornalista, na Assembleia Legislativa, o jornalista e mebro da Academia Brasileira de Letras Murilo Melo Filho – que trabalhou n'A REPÚBLICA no início de sua carreira  –, fala sobre as lembranças e a paixão pelo jornalismo

Por Murilo Melo Filho

ASSECOM /ALRN

“Por esse jornalismo, e por essas letras, sofri. Por ele e por elas, lutei e vivi. Por ele e por elas, ainda hoje continuo vivo”

Desejo que minhas primeiras palavras sejam, antes de mais nada, de agradecimento ao presidente desta Casa, o Deputado Ezequiel Ferreira de Souza, aos vice-presidentes, secretários e membros desta Assembleia, eleitos pelo povo do Rio Grande do Norte, que hoje presta essa importante homenagem a 20 jornalistas da nossa Imprensa Norte-rio-grandense.

Falando em nome deles, tomo a liberdade de declarar que todos eles estão felizes e orgulhosos com a honraria que hoje estão aqui recebendo. Peço-lhes licença também para falar um pouco sobre mim mesmo. Nasci na Av. Tavares de Lira, onde hoje é um depósito de papel do jornal “Tribuna do Norte”.

A primeira imagem que tive da vida foi a de um sagui, pequeno macaquinho, que me deu uma mordida aqui no dedo direito. No dia seguinte, amanheci com o corpo manchado de marcas vermelhas. Eu estava todo envenenado, botando sangue pela boca, durante 30 dias e 30 noites. Vizinhos reuniam-se, rezando por mim. Fui salvo por um médico, o Dr. Farkhatt, que receitou uma injeção salvadora.

A segunda imagem que guardo na vida é a da Revolução Comunista, aqui em Natal, no ano de 1935. O governador Rafael Tavares estava no Teatro Carlos Gomes e refugiou-se na casa de Carlos Lamas, o Cônsul do Chile. Cinco dias depois, a Revolução estava derrotada pelas tropas do Exército que afluíram do Ceará e da Paraíba.

Logo em seguida, meu pai resolveu mudar a sua residência para uma casa destinada ao rádio-telegrafista da Côndor-Lufthansa, lá na Limpa, hoje Santos Reis. Enquanto estávamos morando naquele paraíso da Limpa, o meu pai comprou, a prestação, um terreno na Rua Apodi, 558, entre as avenidas Campos Sales e Prudente de Morais, com 10 metros de frente e 80 metros de fundos.

E aí, sem engenheiros ou arquitetos, com a ajuda apenas de um mestre de obras e três operários, meu pai construiu, em 1938, uma casa de 10 metros quadrados, que foi a primeira construída em todo aquele quarteirão, tendo como vizinhos apenas a Igreja de Santa Teresinha, em frente, o palacete do coronel de Câmara Cascudo, ao lado e o Seminário de São Pedro, atrás. O resto de tudo isto era apenas: mato e cobras. Essa casa, até agora, ainda lá está. Tem o número 558, da Rua Apodi, hoje alugada por um casal de jovens empresários e arquitetos, muito interessados em conservarem a arquitetura do imóvel.

Em frente a ela, jogávamos futebol na areia da Rua Apodi, com Marcelo de Carvalho, Eider Furtado, Oldanir Soares, Moacyr Picado, Renato Magalhães, Edivar e Etiene Reis.Eu, Herilo e Hênio, nascemos na Ribeira. Na Rua Apodi, em pleno Tirol, nasceriam os outros irmãos: Elma, Ilma, Ana Emília e Eduardo.

Tive aí o meu primeiro emprego: com Aluízio Alves, na Legião Brasileira de Assistência e no SERAS – Serviço Estadual de Reeducação e Assistência Social. Nessa Rua Apodi, também, eu já havia me matriculado no Colégio Marista, onde tive como colegas, entre outros, Alexandre Pereira, Antônio Gazzaneo, Breno Wanderley, Dinarte Mariz Júnir, Eider Reis, Erivan França, Genibaldo Barros, José Cortêz Pereira, Orris Soares, Renato Bandeira, Roberto Varela e Solón Galvão Filho. Transferi-me depois para o Ateneu Norte-Rio-Grandense, naquele casarão da Rua Junqueira Aires.

Ali, fui aluno, entre outros, de Alvamar Furtado, Câmara Cascudo, Celestino Pimentel, Clementino Câmara, Monsenhor Mata. Cônego Luís Wanderley, Padre Monte, Esmeraldo Silqueira, Luiz Antônio dos Santos Lima e Véscio Barreto.

Com 15 anos, comecei a trabalhar no jornal A Ordem, na Rua Dr. Barata de Ulysses de Góes e Otto Guerra. Passei em seguida para o Diário de Natal, com Djalma Maranhão, depois exilado e que morreu em Montevidéu, com saudades de Natal.

Publicava um resumo dos Jogos Brasileiros nos domingos, que escutava no rádio. E era pago com um vale de 50 mil réis. Depois, entrei n’A REPÚBLICA, fui colega de Câmara Cascudo, Danilo, Edgar Barbosa, Américo de Oliveira Costa, Valdemar Araújo e João Wilson Mendes Melo, o Acadêmico, meu primo e contemporâneo, vivo ainda hoje, com 93 anos de idade. Pela rádio, ouvia noticiário da Grande Guerra contra o nazismo e os transformava em telegramas como se tivessem vindo da guerra da Europa. Não raro, a primeira página do jornal era quase toda escrita por mim.

Com um mapa na parede, acompanhei toda aquela ofensiva russa que expulsou os nazistas até Belém. Eu tinha, então, 16 anos, numa idade de crescimento, estudando de dia no Ateneu e trabalhando à noite, no casarão d’A REPÚBLICA, aqui perto. Tomando muita chuva, peguei uma pneumonia e fui tratá-la em Nova Cruz, com leite queimado.

Natal não tinha, então, uma só Faculdade. Quem precisasse dela, tinha que recorrer a Recife ou a Maceió. Eu decidi dar o pulo maior e ir direto para o Rio. Quando comuniquei esta decisão, deixei minha mãe chorando e já com saudade do filho mais velho, que abandonava o lar paterno e estava enfrentando aquela aventura de morar no Rio de Janeiro.

Embarquei numa Catalina, que estava pousado no Rio Potengi, ali em frente ao Clube Náutico. Daí decolamos para Recife e dali para Salvador; de Salvador para Vitória e de Vitória para o Rio de Janeiro. Recordo-me daquela viagem de dois dias e duas noites, que repeti ainda nesta última semana, durando apenas duas horas e meia.Viveria aí 15 anos no apartamento da minha tia Emília, a mesma que deixara, em Natal, aquele sagui-macaquinho, de presente para mim. Casei-me aí com Norma, filha de Abel Viana, minha mulher há 60 anos, que infelizmente hoje aqui não pôde comparecer.

O Rio tinha 30 jornais diários, entre outros: “Correio da Manhã”, “Diário de Notícias”, “O Globo”, “Diário Carioca”, “Diário da Noite”, “A Noite”, “O Dia” e “A Notícia”. Ofereci-me em todos eles, para saberem se eu prestava ou não. O único que quis me dar uma chance foi o “Correio da Noite”, um jornal do Cardeal Dom Jaime Câmara. Éramos seis repórteres que saíamos num barco da Polícia Marítima, subíamos numa escadinha de corda dos navios transatlânticos, para entrevistar passageiros importantes. Quando a entrevista era publicada, eu passava na caixa do jornal e fazia um vale de 50 mil réis.

Recebi o Prêmio de uma viagem a Roma, no Ano Santo de 1950, no Cargueiro “Jenny”, que comportava cinco passageiros, mas que transportou quatrocentos. Pode-se imaginar os problemas que enfrentamos de higiene e desconforto. De Roma, fui a Paris, viajando em trens, de noite, para não pagar hotel de dia. Mandei várias reportagens para o jornal.

Quando voltei, recebi o telefonema de um colega meu da Praia de Copacabana. E saudei: — Oh! Seu vagabundo. Trouxe aquelas fotos de mulheres nuas, que você me encomendou de Paris.

— Não, Murilo. Quem está falando aqui é o Carlos Lacerda. Gostei muito de suas reportagens no “Correio da Noite”. Vou lançar o jornal “Tribuna da Imprensa” e gostaria muito que você viesse trabalhar comigo. Respondi:

— Dr. Carlos, o “Correio da Noite” deu-me agora esta viagem como prêmio, e eu não posso aceitar o seu convite, pois seria uma grande ingratidão da minha parte.

Carlos Lacerda respondeu:
— Mas eu posso esperar por você. A “Tribuna da Imprensa” só sairá daqui a 2 ou 3 meses.

Descomprometido com o “Correio da Noite”, demiti-me e fui para a “Tribuna da Imprensa”, onde participei de todas aquelas campanhas: contra o lenocínio de prostitutas no mangue; contra a corrupção policial; contra o Prefeito Mendes de Moraes; contra o tenente Gregório e o próprio Getúlio Vargas. Vim aqui para Natal e ao Nordeste, reunir fotos e assuntos para a campanha “Ajuda teu irmão”, em favor dos flagelados da seca. Estávamos no auge com a campanha de Lacerda contra Getúlio. Coronéis da FAB ofereciam-se para proteger Lacerda.

No dia 24 de agosto de 1954, o Cel. Gustavo Borges tinha um compromisso e foi substituído pelo Major Rubem Vaz, nessa proteção da FAB ao Carlos, que naquela noite ia discursar contra Getúlio, num colégio na Tijuca. Eu estava lá, com o meu Opel Olympia, que seguia o carro de Lacerda.

Paramos na Rua Tonelero, 180. Do carro que nos seguia, saltaram três capangas, um dos quais alvejou o Major Rubem Vaz, morto e fuzilado na calçada. Em desesperada correria, eles fugiram do local, mas um dos guardas que nos acudiam conseguiu anotar a placa do carro, utilizada depois como pista que terminou conduzindo até a guarda pessoal de Getúlio.

Uma semana depois daquele atentado, Carlos me revelou que precisava se encontrar com meu amigo, o Deputado e conterrâneo Café Filho. Eu ainda cheguei a reagir, explicando que, desde quando Café se elegera vice-presidente da República, eu nunca mais falara com ele, Mas, mesmo assim, tentaria cumprir aquela missão.

E promovi o encontro de Lacerda com Café, num local que os próprios sugeriram, para a conversa: o apartamento do nosso conterrâneo, Olavo Galvão, no Hotel Serrador. Os dois ali se encontraram, quando Lacerda recebeu Café o compromisso de assumir a Presidência da República, caso Getúlio fosse deposto, como terminou sendo. A Luthero, seu filho, que era médico, Getúlio chegou a perguntar onde ficava o lugar certo do coração. Luthero ensinou e foi ali que se suicidou.

Passam-se os tempos e Juscelino é eleito Presidente da República. Lança o projeto da construção de Brasília. Na primeira vez que lá ia, convidou-me a ir com ele. Ficamos hospedados no Catetinho, um hotel de madeira projetado por Niemeyer. Os arquitetos e engenheiros estavam reunidos no andar térreo, bebendo uma dose de uísque quente, porque em Brasília ainda não havia energia elétrica e, por consequência, também não havia gelo.

Juscelino disse-lhes: “Vocês sabem que eu não gosto de uísque, mas reconheço que uma pedra de gelo aí, em seus copos, seria muito bem-vinda”. Mal ele acabou de pronunciar essas palavras, o céu de Brasília se enfarruscou, se fechou e começou a despejar granizo.

Foi comovente ver aqueles boêmios tomar uísque com gelo. (um gelo encomendado por JK aos seus amigos lá de cima). Voltei para o Rio, reuni os Blochs, com Adolpho, Arnaldo Niskler, Justino Martins, Magalhães Júnior e disse-lhes: “Vamos entrar nessa, porque este homem é doido e vai construir Brasília”.

Lá, comemos o pão que o diabo amassou. Não gosto nem de me lembrar. Fomos para lá levando o filhinho, Nelson, recém-nascido, com três meses de idade. E lá nasceram mais dois filhos: Fátima e Sérgio, que aí estão, fortes e saudáveis, mas que quase morrem em seus partos, juntos com a mãe.

No parto de Fátima, o médico deixou a placenta dentro, deu alta e, em casa, Norma começou a sentir dores terríveis. Voltou ao Hospital Distrital, fez uma curetagem brutal e salvou-se. O médico-parteiro ficou tão malvisto na cidade que se defendeu dizendo que não me avisou porque eu ia viajar no dia seguinte na comitiva do Presidente João Goulart para Washington e ele não queria que eu viajasse preocupado.

No parto do Sérgio, não quisemos mais o Hospital Distrital e fomos para um hospital particular, recém-inaugurado. Na primeira noite, quando passei no berçário, vi dezenas de moscas esvoaçando sobre o bebê. Peguei Norma pelo braço e saí correndo da Casa de Saúde, com medo de uma infecção. Minha irmã mudou-se aqui de Natal para Brasília, minorando a nossa solidão. Eu já era professor de Jornalismo na Universidade de Brasília, com Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro.

Hoje, Brasília é uma cidade completa. Mas, naquela época, foi muito duro e difícil. Só Deus sabe o quanto. Saudamos aí a inauguração de Brasília, com uma edição especial da Manchete, de um milhão de exemplares, que se esgotaram em 48 horas.

Acompanhei depois o candidato Jânio Quadros e Cuba. O que se bebeu nessa viagem foi uma loucura de caixas e caixas de uísque, até que um colega nosso, em Havana, desceu do avião em estado de coma alcoólico e foi internado num hospital. Estávamos em companhia de Jânio na Embaixada do Brasil em Havana, com o embaixador Vasco Leitão da Cunha, quando lá chegaram Fidel Castro e “Che” Guevara.

Fidel tirou o revólver do coldre e o guardou em cima de um armário, de onde foi roubado por um colega nosso, que jamais o devolveu. Esse jornalista, amigo de raridades, já morreu e eu nunca revelei o seu nome, enquanto ele ainda vivia e muito menos o revelaria depois, agora, que ele já está morto e não pode se explicar nem se defender.

Sucederam-se o governo e a renúncia de Jânio. Esta foi uma fase de muitas viagens ao exterior: fui 18 vezes à Europa, 15 vezes aos Estados Unidos, cinco vezes a países vizinhos da América do Sul, quatro vezes à África e três à Ásia. Esse jornalismo político me deu acesso a reis, rainhas, príncipes, ditadores, primeiros-ministros, presidentes da república, chefes de Estado e de governo, homens todo-poderosos e que entrevistei ao longo destes muitos anos de trabalhos jornalísticos.

Sucederam-se os três anos do governo de Jango e a sua deposição, os 21 anos de governos militares, com todas aquelas misérias e violências.

Sempre em missões jornalísticas, acompanhei os presidentes Café Filho e Juscelino Kubitschek a Portugal: Jânio Quadros à Cuba; João Goulart aos Estados Unidos, México e Chile; João Figueiredo à Alemanha e ao Japão; José Sarney a Portugal, Estados Unidos e Rússia; Fernando Henrique Cardoso à Itália e à Espanha. Cobri a Guerra do Vietnã, duas vezes: em 1967 e em 1973 na companhia do fotógrafo Gervásio Baptista, que ainda hoje com 87 anos de idade, está trabalhando no gabinete do presidente do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. E fui o primeiro jornalista brasileiro a cobrir a guerra do Camboja, tendo chegado a Pnhom-Penh, via Tóquio.

Conheci os picos gelados de Zermat, na Suíça: as geleiras de Anchoreige e do Pólo Ártico; a neve de Kiev, de Leningrado e dos Montes do Ural, na antiga União Soviética; as nevascas de Oslo e de Helsinque; o calor da Galileia, do Mar Morto e das tórridas plantações de café, na Costa do Marfim; a miséria dos bairros de El Kardac, no Cairo; e de Brown Bovery, em Nova York; o luxo de Côte D’Azir; os templos budistas de Angfor e de Phom-Penh no Camboja; de Bangok, na Tailândia e de Kioto, no Japão; os lugares santos de Roma e de Jerusalém.

O amor ao jornal, à revista e à televisão ofereceu-me tudo isto a que eu, a rigor, pelas minhas origens humildes e modestas, não teria direito na vida. Na presença destes jornalistas homenageados por esta Assembleia, concluo dizendo-lhes que esse amor ao jornalismo não me fez um homem rico, nem me deu faustos ou opulências, mas me proporcionou uma estabilidade financeira, profissional e suficiente para dar à minha família uma vida digna, com conforto e bem-estar.

Peço-lhes milhões de desculpas por não ter tido tempo de ser breve e de falar pouco. Falei até demais. É que eu tinha muitas cosias para dizer. Então, concluo, dizendo-lhes que nunca fui outra coisa na vida senão jornalista, escritor e acadêmico – membro da Academia Norte-Riograndense de Letras, presidida pelo acadêmico Diógenes da Cunha Lima; da Academia Teresopolitana; da Academia Carioca e da Academia Brasileira de Letras, tentando devolver-lhes, em dedicação e em trabalho, tudo quanto até hoje tenho recebido delas, que considero profissões fascinantes e maravilhosas, quando exercidas com correção, dignidade e entusiasmo.

Por esse jornalismo e por essas letras, cedo começou a minha vida, quando, menino ainda, aqui em Natal, (como já disse), entrei pela primeira vez num jornal para ganhar o rico salário de 50 mil réis por mês. Por esse jornalismo, e por essas letras, sofri. Por ele e por elas, lutei e vivi. Por ele e por elas, ainda hoje continuo vivo.

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