Das paredes rabiscadas por visitantes ilustres aos adornos arquitetônicos que contornam o seu telhado, tudo é singularidade e expressão na Casa Câmara Cascudo
Por Camila Cascudo
Thiago Oliveira
Vamos, vamos minha gente! Subindo a ladeira da antiga Av. Junqueira Ayres, atual Câmara Cascudo, identificada com o número 377, está a casa onde o meu avô Luis da Câmara Cascudo residiu maior parte de sua vida e produziu sua monumental obra. Empurre o portão de ferro e veja os degraus coloridos da escada, como se fazia antigamente, ao invés da passadeira convidativa, o próprio piso se vestia a rigor e esperava seus convidados.
Construída em forma de chalé em 1900 pelo industrial Afonso Saraiva Maranhão, foi adquirida em 1910 pelo Desembargador José Teotônio Freire (1858-1944), futuro sogro de Cascudo, sendo comprada pelo próprio em 1947. Nela, nasceu a esposa de Câmara Cascudo, Dáhlia Freire Cascudo (sua flor sem espinhos), seus filhos, Fernando Luis e Anna Maria, que também lá se casou, e nela moramos nós, seus netos, Daliana, Newton e eu, Camilla, além de ser palco de importantes encontros de expoentes políticos, sociais e culturais de várias décadas.
A Casa é tombada a nível estadual pela Portaria 045/90 e foi recuperada ao curso de cinco anos para que sua visitação fosse possível em igual ambiente ao que Cascudo vivera. Para isso, foi criada pela família uma pessoa jurídica no modelo de associação civil, o LUDOVICUS – Instituto Câmara Cascudo, que tem por escopo a preservação, divulgação, gerência e capitalização do patrimônio intelectual de seu patrono, contando com suas coleções de arte popular brasileira e estrangeira, arte sacra, etnografia africana, etnografia indígena, comendas, pinacoteca e mobiliário.
Acervo
Engana-se quem pensa que a Casa está vazia. O acervo bibliográfico que compunha a sua biblioteca, outrora chamado de Babilônia, atualmente encontra-se arquivado no Pavilhão Dáhlia Freire Cascudo e é composto de 10.000 volumes, além de 15.000 correspondências (todas estas digitalizadas e disponíveis a consulta de estudantes e professores), 2.000 periódicos, 1.700 separatas, 1.200 plaquetes, 2.000 fotografias, 1.000 artigos de jornais e diversos documentos. Todavia, a antiga biblioteca mantém o precioso acervo de assinaturas em suas paredes escritas, revelando outro tesouro advindo de um hábito de seu proprietário. Em vida, Cascudo permitia que seus visitantes deixassem seus próprios autógrafos em suas paredes, o que faz com que a Casa literalmente fale, contando suas histórias.
Amigos
Dos registros dessas paredes escritas, podemos destacar Juscelino Kubitschek, Gilberto Freire, os primeiros acordes de “Aquarela do Brasil” grafados pelas mãos de Ary Barroso, Procópio Ferreira, Dorival Caymmi, Malba Tahan, Monteiro Lobato, Mario de Andrade, além de fotografias igualmente dedicadas, cheias de espírito fraternal e intimidade como a de Heitor Vila-Lobos, cuja inscrição em sua larga testa traz a brincadeira: “uma boa testa para levar um cascudo amigo”, Rui Barbosa e outros.
Aliás, esse grande acervo fotográfico será visto na sala de entrada ou sala do piano, onde se preserva um belíssimo conjunto de mobília de jacarandá entalhado com veludo, presenteados por Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, fundador do jornal A REPÚBLICA, e, em cuja entrada encontra-se fixado o azulejo português trazido pelo próprio Cascudo com os seguintes dizeres: “Encontrei meu porto. Esperança e fortuna, adeus. Muito me iludiste. Ide iludir a outros, agora.”
Espaço cultural
Além das paredes que falam e de todo seu rico e surpreendente acervo, a Casa abriga como alguns equipamentos para exposições e atividades áudio visuais: um auditório com capacidade para 60 pessoas, utilizado em palestras, lançamentos de livros e exposições; área de convivência interna a casa utilizada para exposições itinerantes; e espaço ao ar livre de grande proporção, que agrega a Casa à travessa Pax, permite que variadas manifestações culturais sejam promovidas, desde folguedos a lançamentos de livros e visitações lúdicas de escolas, que constem de atividades com maior número de pessoas, atendendo ainda as normas de acessibilidade.
Do ponto de vista institucional, a Casa Biográfica cristalizou-se no tempo de maior produção literária de seu patrono. Assim sendo, os móveis e objetos permanecem em seus lugares como se assim estivessem seus ocupantes: quadros nas paredes, fotos de família, louça limpa e guardada entre as alfaias, roupa de cama, máquina de datilografia pronta para um novo livro. Ela nos dá uma sensação mágica de viagem no tempo. Viagem para conhecer um personagem único e genial. Sua visita permite uma maior compreensão de uma época e da vanguardista visão de mundo de Câmara Cascudo, sempre atual.
Aberta à visitação das terças-feiras aos sábados, sempre das 9h as 17h, a Instituição conta com a presença de guias para apresentar seus espaços e agendamento de excursões, além da possibilidade de pesquisa em seu acervo aos estudiosos da obra de Cascudo, da História, da Etnografia, da Antropologia, da Religião, da Gastronomia e de tantas outras searas de conhecimento sobre os quais ele se debruçou.
Portas abertas
É importante que todos saibam e divulguem que a Casa está disponível e acessível a todos os talentos que queiram usar os seus espaços para lançamentos e divulgação de produtos culturais, posto que tem por objetivo servir a Cidade como Cascudo o fez. Assim sendo, embora biográfica, a Casa também é uma participante ativa do futuro de nossa Cidade, fomentando a ebulição do estudo, pesquisa e do saber. Cheia de vida, cheia de memórias.
Das paredes escritas aos adornos arquitetônicos que contornam o seu telhado, o delicado rendado dos lambrequins, tudo é singularidade e expressão na Casa Câmara Cascudo: varandas de ferro donde se via o Potengi, ladrilhos hidráulicos no piso que delineavam ambientes, banheiras de azulejo português e uma infinidade de livros. Uma forte e inquieta alegria pode ser sentida pelos visitantes. Ela mantém-se alvissareira como um abraço. Um abraço bom de regaço de avô. Daqueles que se sente que nunca saiu dali.