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Da cor de rubi

A visita a uma cartomante, induzida por uma amiga, desperta na personagem a esperança de encontrar um grande amor na noite de reveillón. Jogue fora a primeira rosa vermelha quem nunca o desejou

Por Sheyla Azevedo

Ney Douglas Marques

Juliana caminhava pelas ruas naquele horário em que o sol já não estava tão íntimo da pele. Sentia a brisa, mas nem isso a tirava a sensação de sufocamento que vinha de dentro, alheia à paisagem que a deixava sem biografia. Era capaz de se olhar no espelho e não se reconhecer, nem se achar parecida com o pai, com uma tia ou com quem quer que existisse antes dela. Nem ela, pensava, talvez existisse. E se toda aquela história do Big Bang não passasse de uma ilusão? E se espaço e tempo fossem, de fato, coisas sem sentido?

Tinha lido em Clarice algo assim que para qualquer ser humano, o melhor que poderia acontecer era “ter o tempo que quisesse”. Juliana concordava. Melhor do que ter a eternidade – essa mulher branca e fugidia que se esconde pelas frestas do tempo e ninguém consegue de fato agarrá-la — era ter todo o tempo que necessitasse. Tudo o que ela não tinha. Melhor, ela tinha um tempo, mas curto, daqueles em que quase é possível ouvir o tic-tac tic-tac do relógio espremido pelas horas do último dia do ano.

Mas, se nada existisse, então, como é que ela sentia tanto, a ponto de perder o fôlego? Sentia, sobretudo, falta de alguma coisa que não conseguia explicar com palavras. Talvez isso tivesse sido o principal motivo que a levara a dar ouvidos à amiga da amiga Clara e sucumbir aos apelos da cartomante e ouvir o que diziam as cartas. Juliana sempre achara que quando o presente estava uma bosta, as pessoas tendiam a querer apressar o tempo ainda não vivido. E, convenhamos, entregar nas mãos do outro, na predição do futuro, a própria vida e as escolhas a tomar, era por demais cômodo. Ela não gostava muito dessa ideia. Mas já estava sem forças para argumentar.

— Relaxa, menina. Ela é muito boa. Para com essas teorias, essas amarras. Você tá com medo de quê? Que ela veja nas cartas que você vai ficar rica? Ou que vai morrer atropelada por um trem? Você nem joga na loteria, nem passa perto de trem, então relaxa! Dizia Clara, encorajada também pela amiga, Patrícia, que tinha ido primeiro, há um ano, perto do réveillon, e ficara sabendo de algumas coisas que a animaram muito, como por exemplo, que iria conhecer um rapaz loiro e alto, de uma terra distante. E conheceu. Não era bem um norueguês passando férias na cidade. Mas sim um coreano do sul, engenheiro especializado em calefação, de pele amarela, cabelos negros e lisos, olhos puxados, como devem ser todos os coreanos.
— Mas é alto e de uma terra distante – insistia Patrícia, atestando a eficiência da consulente.
— Se esse cara ficar aqui, especializado em calefação, ele vai passar fome não? Provocava, Juliana. — A gente já tem um super astro responsável por aquecer a mais poderosa pedra de mármore. Quem é que precisa de calefação nos trópicos? E ria. E as amigas ficavam sérias. E Patrícia pensava que se fosse o caso, iria embora com ele depois do réveillon desse ano, já que ele prometera voltar em janeiro, trazendo a mãe a tiracolo, com um nome inicialmente impronunciável, para que se conhecessem.

Juliana tinha muita vontade de conversar com as amigas sobre essa necessidade premente e “fru-fru” que as pessoas têm de serem felizes. E será que isso existe? Pensava. Queria mais era aprender a gostar de futebol, foder o fígado com cachaça nos finais de semana e esquecer essa história girlie de encontrar um grande amor. Mas não seria ela. Ela queria se preocupar com as baleias jubarte, aprender a fazer crochê, abrir todas as gaiolas que prendessem pássaros no mundo e, claro, se apaixonar. Não fosse por alguém. Que fosse por algo. Uma causa, um objeto, uma parede. E, na verdade, continuaria a achar futebol uma partida do nada para coisa alguma.

Quando ela, Clara e Patrícia encontraram Wanda, a cartomante, no meio da rua, no coração do centro da cidade, as duas crédulas se entreolharam como se aquilo fosse um aviso, uma espécie de sinal para, finalmente, Juliana entender que precisava consultar as cartas. Wanda era uma mulher que aparentava já ter sido muito bonita. Agora, passava a impressão de que estava murchando. Talvez encolhendo. Tinha um braço mais curto que o outro. Um lado do rosto parecia mais espremido se comparado ao outro lado da face, de olhos miúdos e cabelo ralo castanho. Não era propriamente o estereótipo de uma cartomante com olhos delineados de preto e dedos cheios de anel e saia ampla. Não usava maquiagem. E, no dedo indicador direito tinha um anel solitário, de prata. Juliana observou que era todo esculpido. Uma espécie de Górgona em formato de camafeu.

— Quando é que você vai lá em casa para eu abrir as cartas para ti? Perguntou sem cerimônia. Não era a primeira vez que elas esbarravam nos lugares. E Wanda tinha realmente um carinho por Juliana. Uma simpatia gratuita dessas que brotam de uma simples mirada. Juliana não sentia o mesmo. Mas suas impressões não tinham nada a ver com raiva, repulsa ou desconfiança. Era como se ela não quisesse se aproximar de Wanda por medo daquela mulher ver alguma coisa que ela mesma não queria ver. Como se Wanda fosse uma daquelas pessoas que olham para dentro das outras e percebesse a poeira escondidas nos cantos não varridos. Ninguém gostaria de se sentir exposto dessa maneira. Mas não tinha mais como recusar o convite. Sucumbiu. Marcou para dali a três dias. Seria no dia 31 de dezembro. Afinal, se era para saber o que diziam as cartas, que ao menos fosse num dia em que a grande maioria encara como um momento de transição.

A casa de Wanda ficava num lugar de paisagem exuberante da cidade. Às margens do rio. Dava um certo trabalho para chegar, então Wanda, gentilmente, se dispôs a buscá-la na Praça, que ficava a uns 500 metros de sua rua. Desde que se encontraram, a consulente não parava de falar.

— Nesse ano, no dia 21 desse mês no solstício de verão, tivemos um momento tão bonito. Pena que as pessoas não percebem. Só reclamam que o dia está quente, que o dia não acaba, que o dia foi puxado. A palavra solstício vem do latim: “sol” e “sístere”, significa “permanecer quieto. É um momento mágico, que só acontece uma vez no ano”.

Juliana permanecia calada. Prestando atenção, mais por educação do que por interesse. Percebia agora que Wanda não era propriamente o estereótipo em que se desenha uma pessoa que lê cartas. Veja só, ela já estava falando em “pessoa que lê cartas” e não mais simplesmente em “cartomante”. Wanda era uma mulher solitária. Consciente de suas dores. Dando saltos cotidianos para driblar as deformidades trazidas pelo tempo e por acidentes. Uma vez caíra de um bote, quando se divertia em alguma catarata no Peru. Rachou a cara nas pedras, contou. Também tinha pinos na cabeça por conta de um sério acidente automobilístico. Sua casa era cheia de mandalas trazidas de todos os cantos do mundo. Tinha muitos quadros – alguns com retratos pintados pelos artistas da própria Wanda – e livros do Osho e Jiddu krishnamurti. Juliana começava a sentir certo respeito por aquela mulher de meia idade e meio mundo já vivido e percorrido, depois de três casamentos e um infindável número de namorados. Alguns até famosos. E quando se sentou no chão, por sobre um tapete velho, mas bem cuidado e se acomodou entre duas almofadas de um verde jade quase triste, já se sentia mais à vontade para encarar o próximo monólogo de Wanda, pois, pensava, iria interferir o mínimo possível.

— Você é destra? Mediante a resposta negativa, Wanda pediu que Juliana cortasse as cartas com a mão “não dominante”, ou seja, a direita, naquele caso. E explicou que a mão não dominante simbolizava o inconsciente. – Escolha cinco cartas. Assim Juliana o fez.

A primeira foi colocada no canto esquerdo superior. A segunda, no lado oposto; a terceira voltou para o canto esquerdo inferior, a quarta para o direito inferior e a quinta carta foi posta ao meio.

Para cada uma delas, fez uma pequena explicação:
— Vamos fazer uma representação dos quatro elementos. A primeira carta é a água e simboliza o sentimento, o amor; a segunda é a terra, que está ligada à matéria, dinheiro; a terceira é o fogo, que tem a ver com vontade, força, trabalho e a quarta, o ar, que tem a ver com sua espiritualidade. A quinta carta é o que o seu mestre interior quer falar contigo.

Juliana levantou a sobrancelha e lembrou que enquanto Wanda falava, ela quase tinha parado de respirar e isso tinha causado uma leve taquicardia. Ajeitou a coluna, sentou-se mais firme nas almofadas e se esforçou para equilibrar a respiração. Aquilo estava ficando interessante.

— Sua primeira carta, é o arcano 12, o Enforcado.
— Sim. O que quer dizer? Disse quase de supetão quando viu aquela estranha figura pendurada pelo pé, com a outra perna em forma de quatro e com o bolso lhe caindo moedas. Wanda continuou, paciente.
— Quer dizer que você passa por um período de transição. É tempo de abandonar o velho pelo novo. De aprender a olhar o mundo sob uma nova perspectiva. Isso pode até incluir algumas perdas financeiras.

Enquanto ouvia, Juliana pensava se deveria entregar a casa para uma família de sem-tetos, para só assim encontrar um novo emprego ou um novo amor? E Wanda como se lesse seus pensamentos continuou:
— Significa que você, para aprender a lição no amor precisará dispender de bens ou dinheiro que, inicialmente, você poderá julgar como uma perda. Mas que no fundo não será um dano, porque você estará aprendendo e tendo um ganho ao aprender essa lição.

Juliana respirou fundo. Por um momento quis começar a escrever o que ela dizia ou então gravar no celular, mas achou que quebrar o ritmo de Wanda naquele momento não seria adequado.

— Sua segunda carta, A Força é o arcano 11; que é a força do instinto, a força feminina, da sexualidade e das emoções equilibradas. Quando essa carta cai nesse lugar, ela está falando da sexualidade.
— Mas, se não estou enganada, esse lugar não seria o do trabalho? Interrompeu, confusa.
— Sim. A sexualidade nesse caso, não trata do sexo em si. Está falando das nossas forças de sobrevivência. Está te falando para ter ganas na vida. Porque o homem sobrevive através da sexualidade.

Ao revelar a terceira carta, que trazia o arcano 18, o Fogo, Wanda perguntou a Juliana, quase numa afirmativa. – Você anda meio deprê? Sem forças no momento para encarar a realidade? Você está meio deprimida porque não está suportando se deparar com esse deserto que vem do seu inconsciente. Com essa aridez, as dúvidas, o nada... e silenciou. Juiana não disse sim nem não. Ergueu de novo a sobrancelha e entortou a boca para um lado, como quem prende uma palavra, um suspiro, uma vontade de falar alguma coisa.

— No elemento ar, você vem com o arcano 15, a carta do Diabo. — Ai que horror essa carta hein? Brincou Juliana.
— Não é o que parece. Muitas vezes, ficamos estagnados porque precisamos fazer nada. Para que prestemos atenção ao que realmente importa. Todos nós temos um lado sombra, que não admitimos ver, porque nos incomoda. Afinal, vivemos num mundo que tem expectativas sobre nós. E não podemos sentir raiva, tristeza, depressão porque isso é coisa para fracos. Mas não sabem os ingênuos que podemos aprender grandes lições. Se você olha para o mundo e ele só tem espinhos, o que você vê, além disso?”, provocou a consulente.
— Agora vamos para sua quinta carta. Que é o Mago, o arcano 1 do tarô.
— Eu já li que a primeira carta não é o Mago e sim o Louco, interrompeu Juliana.
­­— Isso. A carta do Louco não tem número. É mesmo a primeira carta. O mago é o começo de tudo. É quando a pessoa olha para os lados e começa a aprender as primeiras lições. E ela percebe que pode mudar. O Mago tem os quatro elementos em cima da mesa.
— É uma boa carta, eu presumo.
— É sim. As cartas lhes dão escolhas. Não a solução. Apontam um caminho para que você possa aprender e se tornar criador de uma nova realidade. Ou então um embusteiro, um arrogante, enganando a si próprio, porque você fica se achando, porque está percebendo as coisas à sua volta. Disse, quase finalizando a consulta. Deixando-a num mar de perguntas e inúmeras frases que queria guardar na memória para não se esquecer.
— Vou te dar uma dica, uma sugestão. Na festa de réveillon de hoje à noite, use uma peça vermelha. Mas, como você não é chegada a obviedades, não estou falando de calcinha vermelha. Use uma peça, um acessório vermelho. Vai te ajudar a encontrar teu caminho, menina.

Peça vermelha. Peça vermelha. Peça vermelha. Mas que diabos! Porque que eu fui dar ouvido às meninas? Se perguntava Juliana, de volta às ruas do centro. Já era quase seis horas da noite, quando saiu da casa de Wanda. As lojas já começavam a fechar as portas. As pessoas começavam a se remexer e se revirar para cuidarem de suas vidas e erguer suas próprias taças. Não daria tempo para pesquisar e encontrar alguma coisa vermelha naquela altura do campeonato que fizesse sentido no seu figurino e obedecesse o conselho daquela mulher, que se tornara mais enigmática que estranha; mais raiz que húmus; mais pedra, menos lama, após aquelas duas horas de conversa.

À noite, perto da hora em que os amigos viriam buscá-la para a festa de Réveillon na casa de um amigo de uma amiga que morava no Canadá e que resolvera passar as festas de fim de ano de volta na cidade, olhou para a pele bem feita, o vestido branco com delicadas flores amarelas e azuis, as sandálias de dedo e se sentiu frustrada. Não tinha conseguido encontrar nenhuma peça vermelha. Nada. Pensou em sapecar um batom vermelho, mas achou que não era bem o que Wanda tinha pensado.

A festa era boa. A noite estava bonita e agradável. O mar de roupas brancas sempre lhe dava uma sensação de paz. E, embora Juliana não fosse muito adepta ao “adeus ano velho, feliz ano novo”, acreditando que no fundo no fundo era tudo igual, um dia com uma noite no meio até chegar um outro dia debaixo do sol, ela acreditava mesmo na hipótese de que, se todas aquelas pessoas desejavam coisas boas umas às outras, felicitando-se, erguendo as taças e os olhos para o céu, acreditando que cada ponto luminoso daquele que espocava à meia-noite era um ponto de esperança, por que não acreditar também? Entrar nessa bolha de boas novas e mergulhar na crença de que o mundo está ruim, mas pode melhorar?

Quinze minutos após os fogos, e de já ter tomado três taças de champanhe durante a festa, Juliana já estava pensando como estaria infernal o trânsito na volta para casa. Talvez fosse melhor descer para a praia, pular as sete ondinhas e jogar para Yemanjá a colônia de Alfazema Suíça que ela trouxe na bolsa, que encontrou numa farmácia de bairro há uns dias atrás e achou muito vintage e muito adequado para oferecer à rainha do mar. Até que seria legal, relaxar um pouco. Limpar as mazelinhas do ano que passou no dia primeiro, já de cara pro mundo, com a maquiagem borrada, pensava sozinha, meio de pilequinho.

Às cinco e quinze da manhã. Quando a casa já emanava uma atmosfera de ressaca e no som, Ivan Lins cantava, “Quero tua risada mais gostosa, desse teu jeito de achar, que a vida pode ser maravilhosa”, após já terem passado toda sorte de música, das bandas indie e folk americanas, a Ravi Shankar, Björk e até Anita, Juliana decidiu descer para a praia. A sensação de chão fofo abraçou seus pés descalços. Decidiu que só pularia as ondinhas depois que o ar úmido de sal abraçasse seus pulmões. Queria beber o mar. Queria se deitar com o mar. Queria deixar o mar molhar seu corpo todo, encharcar a calcinha, os pelos, a pele.

Sentou-se na areia, achando aqueles pensamentos um tanto lascivos e engraçados para um dia que mal começara. Pensava em Wanda e se ela já estaria dormindo naquela hora, quando foi interrompida por uma voz meio grave, meio rouca.

— Essa pulseirinha é sua? Era um homem sorridente, com os cabelos desgrenhados do vento salgado, que esticava o braço em sua direção com um objeto prateado, cheio de contas imitando um rubi rubro demais para ser um rubi verdadeiro.
— Não. Não é. Obrigada. Disse como se pudesse afugentar rapidamente aquele homem. Fazendo o que seria mais seguro e óbvio naquele momento. Mas, no fundo no fundo, com vontade de conversar com o estranho. De torná-lo menos estranho. De rir com alguma piada dele. De saber o nome, a profissão. Quais os planos para 2016. Se ele seria o tipo de cara que a levaria para jantar e depois para dançar em algum lugar e, naquela noite, se beijariam pela primeira vez e depois ele pediria para ir à sua casa e ela assentiria. E antes que ela pudesse continuar a imaginar mais alguma cena, o homem já estava sentado ao seu lado. Mantinha a pulseirinha por entre os dedos, acariciando as contas frias como se fossem pequenos botões e insistiu no sorriso dizendo:
- Eu tenho a impressão de que essa pulseira é sua. Você não estava com ela ontem, mas ela sempre te pertenceu. Estava te esperando.

E Juliana sorriu, aceitando a peça vermelha, afastando-se um pouco para ele se sentar, como se estivessem num sofá estreito, estirando a mão não dominante em sua direção, desejando-lhe feliz ano novo.

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