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Nas ramblas de Barcelona

Por meio da quadrilha “Junina Sertão”, orgulho dessa pequena cidade no agreste potiguar, a história de amor dos jovens por essa tradição nordestina que se torna mais forte a cada ano e serve de palco para toda uma geração criar, se divertir, brilhar, explodir o coração em festa e fazer a “paia avoar”.

Por Erta Souza

Júlio França

Componentes da Junina Sertão em ação: orgulho potiguar

Um grupo de jovens e apenas um sonho: oferecer alternativa de entretenimento para a população de uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte. O desejo de proporcionar opção de lazer aliado ao amor pela cultura nordestina fez nascer, no ano 2000, a Quadrilha Junina Sertão, em Barcelona, município com aproximadamente 4 mil habitantes, localizado na mesorregião agreste potiguar, distante cerca de 100 quilômetros de Natal.

No início, o projeto contava apenas com a parceria de um grupo formado por 40 jovens apaixonados pelas diversas modalidades de arte como: dança, teatro e música. Contudo, desde sua fundação a quadrilha recebeu o apoio da população local que respeita e valoriza o trabalho desenvolvido pela Junina. “Enfrentamos muitas dificuldades para viabilizar o projeto e só temos que agradecer à sociedade de Barcelona pelo apoio irrestrito à Junina Sertão”, disse o diretor da quadrilha, Lecy Silva.

Para conseguir parte dos 35 mil reais necessários para montar o projeto da Junina em 2015, o grupo fez vários eventos durante os últimos meses. “Fizemos rifas, feijoadas e festas com a finalidade de angariar fundos para colaborar com a execução do projeto junino deste ano e sempre tivemos o apoio e respeito da população”, ressaltou.

Logo que acabam as apresentações de um ano a comissão organizadora se reúne para preparar os eventos, com o intuito de arrecadar recursos para o próximo ano. A ideis do diretor é possibilitar que adolescentes das famílias de baixa renda do município não precisem sair da quadrilha - como já foi cogitado - por não poder pagar parte do figurino como arranjos, sapatos, gravata ou maquiagem.

Segundo Lecy, alguns integrantes da quadrilha são tão carentes que não têm dinheiro para comprar o lanche após as apresentações. “É muito triste você amar a cultura nordestina, se apresentar levando alegria para centenas de pessoas como eles fazem e não ter dinheiro sequer para comer. Então todo mundo ajuda, mas não deixamos ninguém desistir. Somos uma família”, ressaltou Lecy, acrescentando que a comissão apoia também aos dançarinos que não têm como pagar a costura do figurino.

Dificuldades
Como o apoio do poder público é insuficiente, de acordo com Lecy, o trabalho para conseguir recursos para o ano seguinte começa em setembro. “Nosso descanso é muito pouco porque temos que definir quais serão os eventos que vamos promover para arrecadar dinheiro para o projeto do ano seguinte”, relatou.

Lecy é professor das redes municipal e estadual de educação e disse que perdeu as contas de quantas vezes usou parte do seu salário na quadrilha para não ver os sonhos de tantos jovens desmoronarem. “Muitos nos relatam as inúmeras dificuldades e o porquê precisam desistir, mas a arte sempre fala mais alto no coração desses apaixonados pela cultura e seguimos unidos”, diz emocionado. E a cada dia parece que a responsabilidade da Junina Sertão só aumenta. É que atualmente não são apenas os adolescentes de Barcelona envolvidos na quadrilha. Alguns jovens das cidades vizinhas de Lagoa de Velhos, São Tomé e São Paulo do Potengi foram acolhidos pela quadrilha que conta agora com 84 pessoas envolvidas diretamente no projeto.

Reconhecimento
Desde 2004 a Junina Sertão passou a ser reconhecida por ter inovado a categoria de quadrilhas tradicionais do Rio Grande do Norte ao se apresentar com tema e figurinos próprios. Há alguns anos a quadrilha vem se classificando, vencendo festivais de grande porte e colecionando títulos importantes pelo Estado.

Com o tema de 2015 - “Ideia de Jerico” - a Sertão (como é carinhosamente chamada por seus integrantes) se consagrou como um dos mais importantes grupos tradicionais do Estado, pois é a atual campeã dos festivais de Mossoró, Touros, Sítio Novo, Serra Caiada e Tangará. O grupo foi vice-campeão nas disputas nas cidades de Currais Novos, São Tomé, Riachuelo e São Pedro. Outro título que merece destaque da Junina Sertão é o de vice-campeã no Festival das Campeãs, promovido pela Fundação José Augusto, no início de julho, em Natal.

Nesse mesmo campeonato a Junina Sertão levou também os troféus de melhor rainha com a jovem Carla Yrochima e melhor marcador com João Paulo Fernandes. Natural de Lagoa de Velhos, João Paulo Fernandes, 23 anos, concluinte do curso de ciências contábeis, deixa os números de lado um pouco para ajudar a quadrilha como marcador. “Ser marcador foi uma possibilidade que surgiu em minha vida, não me preparei para isso, mas como amo a cultura nordestina, então me sinto realizado porque tudo acontece naturalmente” conta. João é um dos oito jovens de Lagoa de Velhos que integram o grupo de Barcelona.

Devido aos títulos conquistados em 2015 com “Ideia de Jerico”, a Junina Sertão foi convidada pela Confederação Nacional de Quadrilhas Juninas e Grupos Folclóricos (CONAQJ) para representar o Rio Grande do Norte no 3º Campeonato Brasileiro de Quadrilhas Juninas que aconteceu em Brasília (DF), nos dias 7, 8 e 9 de agosto.

Esforço
Quem pensa que foi fácil para a quadrilha chegar ao lugar mais alto do pódio e ser reconhecida como uma das mais importantes na categoria tradicional do Estado, não imagina quantas noites esses jovens passaram sem dormir para aprimorar os passos da coreografia e os textos da apresentação. Isso para não falar nos meses de estudo para preparar a encenação, escolher o repertório adequado ao tema, bordar pedras e bandeirinhas nos figurinos dos dançarinos, além de andar muitos quilômetros em caminhões pau de arara por não ter dinheiro para contratar ônibus.

Durante muito tempo o grupo não tinha onde ensaiar, por isso usava um galpão cedido por um senhor da cidade. “Era um espaço ao lado de um curral, então o cheiro era ruim, mas tínhamos que conviver com vacas e bois para poder ensaiar e agradecemos a ele por ter nos emprestado esse lugar”, disse o diretor. Atualmente os ensaios da Junina Sertão são realizados no espaço da Câmara de Vereadores de Barcelona.

Devido à escassez de recursos, o grupo fez um verdadeiro malabarismo para conseguir se apresentar em 2015. Como não tinham os 35 mil reais previstos no projeto da quadrilha, eles utilizaram tecidos doados e botões dos figurinos antigos para economizar. “Precisávamos de 17 mil somente para o transporte, por isso economizamos no que pudemos”, afirmou Lecy, atual diretor da quadrilha.

Tema
O tema da quadrilha é definido ainda no ano anterior devido à necessidade de um estudo minucioso para alinhar figurino, repertório e encenação com a ideia proposta. Baseada no trecho da “Morte da Cachorra” que integra a obra clássica “O Auto da Compadecida” do escritor paraibano, Ariano Suassuna, “Ideia de Jerico” retrata o desejo do proprietário de um jumento em casar seu animal na igreja com a burrinha pertencente à Severina por ter obtido sucesso na colheita.

Como o sacerdote não aceita a “Ideia de Jerico”, os proprietários dos jumentos ameaçam tirar alguns objetos da igreja a fim de convencer o padre. O sacerdote alega, ainda, que haverá outro casamento e o casal não aceita a proposta de ter como companheiros de cerimônia matrimonial um casal de burros. Os proprietários dos jumentos só conseguem convencer o casal a aceitar os burrinhos na celebração porque os convida para participar da festa que será realizada na fazenda para comemorar a união dos animais.

A decisão de homenagear o jumento – animal que representa a força e garra do povo nordestino - surgiu durante as reuniões do grupo em mostrar a cultura regional. A coreografia da Junina Sertão, assinada desde 2004 pelo coreógrafo pernambucano Sidcley Silva, conta com passos tradicionais das quadrilhas matutas como sangê, ganchê, túnel, círculo e x a galope.

Premiação
Parte do dinheiro conquistado nas apresentações deste ano será usada para pagar contas. Mas quem pensa que essa turma se abala por ter que começar tudo de novo para conseguir os recursos para o próximo ano está enganado. A revolução que essa quadrilha tem feito na vida desses jovens e a sensação de levar alegria aos arraias aumentam a garra e desejo de levar adiante o amor pela cultura nordestina.

E tome xote...

Os Meirinhos cresceram e viraram Meirão

Frankie Marcone

Como explicar o fato de uma criança aos 12 anos de idade segurar uma sanfona pela primeira vez e começar a tocar a música Asa Branca, hino do nordeste brasileiro? A resposta é uma só: dom. Essa cena poderia muito bem fazer parte da sinopse de uma novela, mas ficaria bem mais adequada ao roteiro de um filme baseado em fatos reais já que a história é verdadeira e aconteceu no ano de 2002, no município de Bom Jesus, distante cerca de 50 quilômetros de Natal.

O talento do menino Claubertto ao tocar a sanfona foi percebido imediatamente pelo pai, Carlos Freire, e causou espanto no vizinho, proprietário do instrumento, que resolveu emprestar a sanfona ao jovem aprendiz por duas semanas. Nesse período, Claubertto fez uma espécie de intensivo com os irmãos, Cláudio e Ana Cláudia, à época com 14 e 7 anos, respectivamente.

A presença da sanfona na casa da família Freire só intensificou o amor que as crianças tinham pela música. Filhos de uma dona de casa e de um motorista, os três jovens acreditam que o gosto musical do pai pela cultura nordestina influenciou o estilo deles desde cedo. Com as aulas do irmão, Cláudio aprendeu a tocar zabumba e a cantar, enquanto a caçula Ana Cláudia, com apenas sete anos, aprendeu a tocar triângulo. E foi com essa formação que nascia o grupo Mirins do Forró, em 2002, ano do primeiro show em um restaurante de Natal.

A banda mudou de nome em 2005, passando a se chamar Meirinhos do Forró. Em 2013, O nome foi alterado outra vez. Agora, o grupo chama-se Forró Meirão. Com a mudança, eles trocaram as roupas típicas por um estilo mais moderno. Mas a principal diferença foi mesmo nas músicas. O repertório foi ampliado e agora inclui os sucessos de forró de bandas conhecidas nacionalmente, mas há sempre espaço reservado para os clássicos de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês e Dominguinhos.

Atualmente o Forró Meirão é composto por oito componentes. Além da sanfona, zabumba e triângulo, a banda conta com bateria, guitarra, baixo e percussão. Com 13 anos de estrada a banda potiguar participou de turnês em diversos estados do Brasil como São Paulo, Paraíba, Ceará, Pernambuco, Alagoas e Brasília (DF). O primeiro CD do grupo “Sertão do Cabugi” foi gravado em 2006 com músicas inéditas, tanto dos componentes como de parceiros musicais. Em 2007 foi lançado o segundo disco “Coisa de Jovem”, gravado ao vivo com um repertório no estilo pé de serra. No ano seguinte, lançaram o “Autêntico Forró Brasileiro”, terceiro álbum da banda. O quarto disco “O Verdadeiro Forró do Brasil” foi lançado em 2009. No ano seguinte o grupo gravou o CD Sabor de Raiz, com canções do compositor Nelson Freire. Em 2011 lançaram “Além da Razão” com músicas inéditas e regravações e em 2012 mais um CD ao vivo. Já na transição para a mudança de nome, o grupo lançou em 2013 o disco “Meirinhos e Forró Meirão, o Som da Multidão”.

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